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NÃO-DUALIDADE
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Encontro no Aqui-Agora.«Agora mesmo, este encontro tu e eu, uma única vez através do tempo e do espaço.» Sem abrigo...Estes homens e mulheres são ilhas de carne, náufragos num mar de gente que não tem nem os olhos nem os ouvidos necessários para os ver ou ouvir, estes seres são ilhas que, por definição, nunca se tocam, mas que se entendem de alguma forma, criam-se enquanto arquipélagos de gente, desenvolvendo acordos tácitos, linguagens comuns, falas silenciosas construídas sobre olhares e resmungos inaudíveis, perceptíveis apenas através da dança das rugas dos seus rostos, são uma sub-espécie humana, composta, todavia, e no seu todo, por membros da espécie maior, são iguais a todos os outros, a única diferença consistindo no facto de parecerem eles não ter nome ou idade, nem sonhos dentro da cabeça ou um coração no peito e outro na alma, são cidadãos esquecidos, deliberadamente esquecidos, somos nós que os vemos e esvaziamos o olhar, para que não se veja que vimos, somos homens e mulheres de olhos vazios, escondendo-nos de um outro em farrapos, somos um exército de mortos-vivos filhos da puta sem consciência ou coragem, dois vocábulos grandes e grandemente apagados da consciência colectiva. Mas, e para se ser totalmente honesto, neste mar que somos, este mundo de corpos e cabeças, neste mar não existem senão ilhas, a água existe apenas em formato teórico, porque a prática dos dias mostra que todos somos pedaços de terra isolada entre águas frias, ninguém se toca, ninguém se sente, há sempre uma barreira invisível, uma membrana transparente que nos deixa parecer colados uns aos outros, mas sem nunca nos sentirmos. Somos uma multidão de corpos ignorantes do outro, habitantes dentro de castelos, somos almas abandonadas como casas em meio de campos, exército que se destrói e a outros na ânsia de encontrar uma fuga à solidão, uma fuga ao esquecimento dos sonhos e calor humanos, procuramos uma forma de encontrar algures alguém que seja mais do que um corpo apenas e esquecido, mais do que uma fortaleza de vidraça, mais do que um mero fragmento do que se podia ser. Dré Cedo demais... Ágata, a ti deixo estas palavras, para falar do que não pode ser, alguma vez, dito… porque partiste cedo demais.
É a irreversibilidade da morte que me desfaz por dentro, a saudade de um futuro que nunca será. Vejo o teu rosto como se uma recordação apenas fosse, uma imagem que se desfaz como espuma dentro d’água. A raiva da ausência de sentido, da ausência de todos os sentidos em todas as coisas sentidas por mim, ou por nós. Nada tem sentido, as coisas são sempre apenas coisas, sentidos são sempre ideias e sonhos e dores que carregamos no peito, até que um dia a vida nos fura nos penetra como um tiro uma lança no peito da alma e não sobra nada, nunca sobra nada quando a vida cai no chão. Fica sempre só a dor, a raiva, a vontade de cuspir na vida, de a olhar de lado, como se ela fosse apenas quase-alguma-coisa digna de respeito. Nunca te abracei. Foda-se, que vida gasta em nadas, sonha-se tudo mas fica-se sempre de mãos vazias. Porque não te abracei eu enquanto estavas aqui?, se agora a única coisa que queria era enlaçar-te com o meu corpo e dizer-te, com palavras feitas de braços e pernas e peito e rosto, que és especial e que habitas dentro de mim na forma de um sorriso. A morte é uma abstracção que não encontra sinónimo na vida do concreto, num mundo de pedras e pessoas, de carros e prédios e pernas braços e palavras sons e imagens, num mundo de tudo, que raio é o nada da morte? Que faz ela aqui?, eterna estrangeira entre nós, turista sempre presente entre os habitantes autóctones desta vida. A morte é um engano um erro dolorosamente necessário, como se se precisasse de aprender e esquecer e voltar a aprender o que não tem qualquer necessidade de, ou propósito ao, ser aprendido. Porque nunca há nada a ser aprendido ou compreendido, esta existência é sempre apenas uma casca de árvore seca a boiar num rio qualquer, nem o rio pensa nem a casca sente nem as margens olham ou seguem o movimento das águas, nada alguma vez existiu para ser coisa alguma ou nenhuma, a vida é um molho de pedras caídas no chão espalhadas ao acaso, os desenhos que elas fazem são sempre inventados imaginados, são sempre… nada O que é que fica?, se algo fica, fica o sonho de que tudo isto não passe de um sonho, não passe de memória de algo que nunca aconteceu, como uma risada solta despreocupadamente, um encolher de ombros feliz, porque tudo estaria então bem. O que é que fica? Se algo fica, fica a saudade… a saudade de nunca ter sentido o cheiro do teu cabelo, ou o ter passado entrededos, como se vento ou água fosse, a saudade de não saber que sonhos carregavas no peito, que asas te fariam voar se as encontrasses ou soltasses. Fica a dor de te ter deixado partir sem antes te ter deixado chegar, plenamente, pousando as bagagens que trarias, tomando um duche no meu coração, espreguiçando-te nas almofadas da minha alma, ver-te adormecer na paz de te saberes em casa também tua. O meu coração foi casa que esteve sempre de portas abertas, mas, sem tal querer, acabei por nunca te convidar a entrar. E assim os dias passaram e, hoje, acabaste por sair, sem nunca teres entrado. E ficou assim, para trás, uma casa mais vazia, porque tu foste embora, uma casa mais sozinha, uma casa onde moro agora, onde vivem apenas eu e um sonho, o sonho que tudo seja apenas um sonho e que, por detrás das paredes invisíveis da minha esperança, estejas tu, feliz como sempre te conheci, a construir o palácio da tua vida. 09’ 09 ‘2009 Dré
Faz oq u e for preci soFaz o que for preciso para seres quem queres ser trilha cada caminho bate em cada porta sobe a todas as árvores e escala todas as montanhas salta por cima de cada rio e engole o oceano faz todas as perguntas se achares necessário e pondera sobre todas as respostas atravessa todas as nações e alcança todos os horizontes senta-te em todas as pedras e contempla todas as estrelas se nelas procuras a tua luz lê todos os livros adora todos os deuses e entoa todas as orações se tal for conveniente aprende todas as danças e fala com todos os estranhos. Acima de tudo, não sejas um estranho para ti mesmo, não sejas apenas um reflexo, mas a fonte da luz que em ti se sente, se fores o pé que caminha serás também o olhar que vê e o braço que alcança, caso contrário serás sempre e apenas um projecto uma casa erguida a meio sem parede nem tecto nem telhado ou telha, serás sempre e apenas um sonho, morrerás no fim da estrada e verás que ser reflexo do outro é ser sempre sombra de si próprio, morres e vês que na penumbra que és o sol nunca foi, a noite é a tua morada e nela nunca te amanhece a alma. Dré Ginasta de dorO seu rosto contorce-se como um ginasta, dez pontos de pura dor, perfeito esmagamento emocional, absoluta escuridão d'alma rasgando o ser com a velocidade de um relâmpago, num coração de papel, esta dor é chama que consome até as cinzas, a mulher é um cartucho de pólvora detonada, eu sou agora um pacote de alma vazia, sinto-me esmagado pelo sentimento expresso no rosto desta mulher, como se o seu peito tivesse sido furado por uma bala de canhão e lá se encontrasse agora somente um buraco vazio, a dor que sinto em mim é apenas a presença do mesmo vazio naquilo que outrora havia sido o meu coração, sou praia sugada por onda gigante, em tempos luminosa sob a luz do sol, hoje sou terra escura no fundo do mar. Ela chora durante duas horas, eu vejo-a chorar durante duas horas, pergunta-me porque não choro, eu digo-lhe Já chorei tudo o que houve alguma vez neste mundo para chorar, o meu ser está enxuto como apenas um pão numa despensa esquecida o está, sou nuvem que choveu já tudo o que era e dessa forma desapareceu, o que vês em mim é uma gaveta vazia, é uma moldura sem quadro, a alma caiu-me há muito das mãos, o que vês e abraças e sentes entre dedos é um desenho feito de pele, do lado de dentro já não existo, do lado de fora nunca existi, o não-ser que sou agora é mero limiar entre mundos, é marca de água num copo seco, recordação somente do que era, este corpo que vês diante de ti é uma mera certidão do que fui, algo que, existindo, existe apenas como prova de algo que deixou de existir. Dré Retirado do Diário de um Condenado à Morte Elo gi o d o ab r a çoEste é um abraço que é como fazer amor, nada perde em intimidade ou profundidade, a excelência da união e da partilha é a mesma, a única diferença é que no abraço não se olha nos olhos do outro, por isso os mais sinceros abraços são dados às escuras, olhos cerrados e persianas corridas, o mundo inteiro desligado, apenas o outro se sente, o outro que é o mesmo, é neste abraço que a ideia do outro cai na terra e se faz semente de um segredo sussurrado aos ouvidos do coração, um segredo que diz Não existe Outro, e este é o verdadeiro abraço, que é o único amor, o próprio acto de penetração física do ventre, a execução do amor, deverá ser como aquele abraço, mas de olhos abertos, essa é a doçura particular desta outra partilha, beber do amado com os cinco sentidos, olhos bem despertos e pousados no rosto que amamos, mas com a certeza de que o olhar do amado é apenas o outro lado do nosso próprio olhar. Dré A textura do alcatrão![]() Sucesso ou insucesso, na vida dependem mais de acasos ou curvas do destino do que propriamente de deliberação humana, os momentos decisivos são frequentemente cruzamentos pelos quais passamos a olhar para o lado, distraídos com algo que não o fundamental no momento, o que decide o caminho é mais a textura do alcatrão que pisamos ou os ângulos mortos da estrada do que propriamente os pés que levamos calçados. Retirado d'O Génio Dre' con tradição ab surdaA existência humana é uma contradição absurda, como a de um homem que detesta rir. Dre' Exército de bor bo l e t a sDesmorono-me perante o meu amor por ti, como um gigante musculado derrubado por um exército de borboletas, uma montanha rasgada por balas de água, este sentimento rebola-se em mim como a erosão do tempo e transformo-me em pedra polida, brilhante mas gasta, eu, aquela que todos olham com ânsia e uma luz no rosto, agora nas mãos do coração de alguém que não consegue sequer olhar-me de forma a ver-me realmente. Retirado d'O Génio Dré Reflexões sobre a morteObviamente, quem sou eu para não morrer?, de costas para o enorme pedestal no centro da praça, uma multidão desloca-se debaixo do meu olhar, no meio de tantos futuros cadáveres sou apenas mais um, que diferença imaginei eu ter, que sonhos cri eu carregar no coração que me permitiriam uma excepção à regra da vida, que é a regra da morte de tudo o que respira – através de pulmão, guelra ou folha, é tudo o mesmo perante os olhos da morte, tudo o mesmo trigo, quando a foice desliza e decepa tudo sem excepção cai e se faz terra. Mas não agora. É o travo da juventude, ainda nos meus lábios, que sempre me afasta o pensamento da extinção, quando a existência me corre nas veias com a força de rios e mares, quando os sonhos que trago no peito parecem mais férteis do que as primaveras deste mundo, como pode sequer o pensamento da não-existência ser ponderado?, a morte é sempre teoria, a prática da vida é a de olhar sempre em frente, sempre mais além, sempre construir mais, e mais alto e mais sólido, mais impressionante, caminhar sempre para adiante, e embora cada dia de caminhada seja um dia mais próximo do fim de tudo, apesar disso é a força da vida a correr debaixo destes pés que me empurra sempre para a frente, a vida do ser humano é como um dedo que aponta, uma flecha que voa constantemente, é o néctar da juventude que me faz esquecer que, mais além, sempre espera a mesma parede, uma muralha que se ergue para o alto, e uma vala que mergulha para o fundo, para trás não há viagem, passo dado é sempre passo perdido, gasto, somos sempre seres sem costas, sem regresso, e para a frente cessou o caminho, mas a paragem é impossível, eterno movimento eu sou, a inquietude do pensamento empurra estes sapatos, a jornada continua enquanto há vida nestas veias, o último passo é dado finalmente, é um pé que resvala na fenda aberta, um peito que esbarra na parede tosca, é aqui que o espírito se entorna na poeira da estrada, faz-se lama e quem vem atrás apenas pisa, é este o destino, o fim, o culminar inevitável de todo o caminhar. Mas não agora. Trinta e quatro anos e neste momento, nesta cidade, não haverá ninguém que queira viver mais intensamente do que eu, sinto um grito a querer rebentar da garganta, mas fica amortecido na humidade que me invade os olhos, uma lágrima cai e toca-me os lábios, no seu sal vem a certeza de que este grito mudo será o meu companheiro nos dias que me restam. A praça está repleta de gente, mas a solidão que sinto do lado de cá da pele é interminável, dentro deste corpo sei que sou o único habitante de um mundo imenso, sem água nem luz, eterno deserto de escuridão absoluta, sem fim nem principio, sem pontas ou abismos de onde saltar, o peso que me esmaga a alma é o de saber que este deserto é mar que se estende interminavelmente, sem continentes ou costas de terra, nem em mil anos de naufrágio encontraria uma praia onde morrer em paz. No topo do pedestal, atrás de mim, uma estátua de mármore, nem sei se aponta para algum lado, ou se carrega nas mãos um qualquer objecto, sei apenas que, sorrindo ou não, ela diverte-se inocentemente com a minha tormenta, dentro deste peito há mares varridos por ventos que são como braços grossos de gigantes, mas na pedra que é coração e cabeça deste homem estático, nessa pedra habita a solidez que queria como jangada no mar que trago dentro. ___ Hoje sinto-me como que deitado numa cama de hospital, anestesiada a psique, o corpo caminha lentamente, parece animado por uma força exterior, a mente está parada como uma poça de água numa tarde límpida de Inverno, como um tronco grosso de uma árvore, nada se mexe dentro do crânio, não há vento, não há ondulação, não há nada, há apenas este caminhar, há apenas este olhar, a água bate na lona do chapéu-de-chuva, o som é constante, repetitivo, é um cântico amortecedor, soa a canção de embalar, mas nada dentro de mim adormece porque nada há que esteja ainda desperto, sou um corpo-mente entorpecido, desço no elevador entre nascimento e óbito, há vida e morte em mim, simultaneamente sou ambas, no mesmo espaço e tempo sou morte que nasce e vida que perece. ___ Duas igrejas na rua que se espraia à minha frente, uma terceira mais adiante, levanto-me e caminho até lá, a da esquerda está aberta, encostado à direita da porta está um indigente com um copo de plástico vazio de moedas, sinto uma empatia estranha com este homem, estamos ambos do mesmo lado da vida, o lado que resvala para a morte, pés na vida, olhos na morte, este farrapo de homem já nada faz neste mundo, este mundo já nada faz a este farrapo de homem que eu sou hoje. Entro e sento-me, apenas de longe miro a água que se diz benta, se esta morte que se aproxima é castigo de Deus, não será naquela pia sagrada que me lavarei dos pecados que em meu nome exaltaram a pessoa divina. Dentro do edifício o silêncio parece fazer eco e nas profundezas desta mudez sinto os meus pensamentos a bailar em ricochete, são balas em ziguezague, um enxame de abelhas de ferrão alçado a redopiar em forma de ciclone, no epicentro da tempestade está o meu coração, trespassado mil vezes por minuto, parece um saco-de-plástico cheio de água, mil furos cravados nele e o líquido esguicha como repuxo, agora é no meu peito que se ergue esta fonte, nela me debruço e nos dois palmos de água me afogo diariamente. O silêncio que senti na praça é apenas memória agora, memórias são ruídos afiados na minha mente, as paredes do meu crânio sangram com os golpes do meus próprios pensamentos, os sons da rua são lembranças de uma vida que se vai embora, lentamente, de mão erguida em saudação de despedida, o silêncio que fica é o cobertor da morte, um falecimento de sentidos que me deixa esquecido debaixo de uma manta suja e rota, cosida com remendos de trapos. Retirado do Diário de um Condenado à Morte Dré Eternas almas escondidasTalvez porque a alma seja transparente e o corpo se meça com músculos e palmos de mão, será por isso que somos sempre seres invisíveis, quem somos fica invariavelmente por mostrar, ou por dizer, porque a nossa transparência não se pinta com a cor das palavras que nos saem da boca, nem se vê na dança dos gestos que habitam o corpo, somos eternas almas escondidas, como cubos de ar fechados dentro de caixas, cativos em prisões nunca inventadas, estátuas encarceradas em blocos de granito por esculpir. A mim nunca ninguém me viu ou verá, o que habita dentro, e que é o sonho maior do meu coração, é mundo incógnito para quem apenas olha, os cotovelos roçam na multidão, mas para esta serei sempre e só um corpo, um corpo com uma boca que grita palavras escritas em dicionários alheios, em nenhum deles encontrei eu algum dia a minha alma, nenhuma palavra foi inventada para ou por mim, nenhuma delas nasceu de dentro de mim, todas vêm de fora e, quando as volto a lançar para a multidão, elas levam somente o meu cheiro, não aquilo que sou, o cheiro é sempre pista para algo mais, indício daquilo que talvez não se veja ainda, mas já se sabe existir, quem me vê apenas sabe que aqui estou, o meu corpo é o meu porta-voz, mas a voz que ele transporta e que é o que se esconde por dentro, essa ninguém procura, sabe-se que existo, como ou porque existo?, isto continua como um corpo de braços abertos por detrás de um muro. Dré Caderno Fernando PessoaChamo a esta entrada Caderno Fernando Pessoa porque é esse o nome do bloco de notas onde escrevi os meus pensamentos aquando da minha busca em Santa Cruz, CA, com o John Wheeler. Mais do que o descrito nos The California Diaries, este é o retrato do que foi a verdadeira viagem. A introdução que se segue foi acrescentada durante o processo. às vezes precisamos de um abanão para questionarmos certas coisas às vezes precisamos de questionar certas coisas para encontrarmos as nossas próprias respostas o u s e j a às vezes precisamos de um abanão para encontrarmos as nossas próprias respostas venham então os abanões da vida estou numa fase de questionar tudo em mim se não o fizer, jamais poderei alguma vez encontrar uma só resposta verdadeira, uma só resposta que seja genuinamente minha enquanto seguirmos pela vida amarrados aos carris que nos colocam sob os pés, jamais poderemos encontrar a nossa verdadeira identidade se seguimos nos caminhos que já estão feitos, nunca chegaremos a nenhum lugar a que possamos chamar de nosso nunca chegaremos à nossa casa enquanto continuarmos a seguir os caminhos dos outros prefiro caminhar perdido sem saber a onde me dirijo do que me encontrar parado em lugar que não o meu sou grande, não pelo que encontro, mas pelo que busco [a p o n t a m e n t o s] 24 Jan Quem sou eu? Parece haver uma qualquer relação com este corpo, mas tal não está plenamente provado. Ele aparece-me inúmeras vezes, mas é apenas algo que vejo e sinto. É uma percepção em nada diferente do mar que oiço ou do pão que mastigo, com excepção da sua persistência em me importunar. Eu vejo-o, eu toco-o, sinto-o de várias formas, mas serei eu ele? Claramente não sou nenhuma parte em especifico, não há nenhum pedaço que eu consiga isolar e dizer com toda a certeza, "Isto é quem eu sou". ___ [ISTO corresponde à soma de todas as percepções possíveis - todos os sons e imagens, todas as sensações e odores, todos os pensamentos e emoções] ISTO é tudo o que aparece, de nada mais estou seguro. Estarei eu n'ISTO? Onde? O corpo parece estar sempre presente, mas isso é um pressuposto. Quando estou imerso em pensamentos, estará o corpo ainda lá? Eu penso ter estado, há cinco minutos, sentado junto ao farol (em Santa Cruz), mas isso é só um pensamento que tenho Agora, apenas mais um dos muitos pedaços d'ISTO. Não tenho, portanto, qualquer prova de alguma vez ter estado sentado junto ao farol. ISTO muda constante e completamente, ficará algo alguma vez igual? Haverá algo que permaneça durante a mutação permanente d'ISTO? ___ Existo eu? Como posso provar a minha existência? Será ela assim tão óbvia? Tudo o que vejo é o mundo, existirei eu nele? Não me encontro em lugar algum. Será que existo? ___ Serei eu o corpo ou estarei apenas dentro dele? Serei eu o corpo ou estará ele dentro de mim? Definitivamente parece o segundo caso o mais verdadeiro. O corpo está dentro de mim, tal como o mundo está dentro de mim. O corpo está dentro do mundo que está dentro de mim. Mas não há diferença entre corpo e mundo. Um não está dentro do outro, nem o segundo engloba o primeiro. Tudo é percepção individida, una, indiferenciada. ___ "Eu quero saber quem sou". O que é isto senão um pensamento?, uma percepção n'ISTO? Quem é que quer saber quem é? Quem? Onde? Onde está essa pessoa? Vejo apenas percepções indiferenciadas, indivisíveis. Que diria eu do mundo se nascesse agora mesmo e sem qualquer ideia sobre ele? O mundo parece estender-se por muitos quilómetros, os meus olhos alcançam grandes distâncias, mas será isso real ou haverá apenas uma percepção de distância? Um ecrã de televisão pode ser plano, ou uma tela de cinema espalmada, mas neles vemos paisagens sem fim, oceanos imensos, profundidades extensas. Qual a profundidade do que vejo? A percepção da realidade não é a realidade, mas haverá realidade de todo para além da percepção dela? Poderá a realidade ser irreal e apenas a percepção dela ser tudo o que temos? ___ Haverá eu e outro? Emocionalmente parece que sim, mas não encontro a prova física disso. Imagens vão e vêm, mas nenhuma delas é necessariamente eu ou outro. ___ Em 26 anos de existência, nenhuma célula do meu corpo sobreviveu até hoje, nenhuma se manteve igual. No pensamento, nenhum conceito, nenhuma ideia sobreviveu até hoje sem mudança. Como poderia eu ser algum destes, corpo ou pensamento? Parece que é sempre este "meu" corpo que aparece e, embora pareça não ter nada a ver comigo, sinto-me como que preso dentro dele. Mas não será isso apenas uma ideia? Como provar que tenho estado sempre dentro deste pedaço de carne? Se me mostram fotografias do passado isso é apenas ISTO, Aqui-Agora. Se recupero uma memoria de tempos idos isso é apenas um pensamento n'ISTO, Aqui-Agora. Uma imagem, um pensamento, tudo percepção. Neste momento, Aqui-Agora, vejo o que vejo. Tudo o resto é especulação. Se há este corpo, tudo bem, é a percepção possível Aqui-Agora. Há quanto tempo me acompanha este corpo? Aqui-Agora não há prova alguma de que o tempo exista, nem aquilo a que chamo corpo. São perguntas que faço que não trazem respostas, mas o silêncio de ausência de resposta é verdadeiramente meu. São perguntas que me levam a lado nenhum, mas esse é um lugar que genuinamente procurei e mereci. ___ O que é o sofrimento? É dor do que corre diferente do que se queria, ou corre quando não se queria ou não corre quando se queria. Estará o sofrimento dependente da minha existência? Não... Sim, se eu não existir como poderá algo mais existir, incluindo o sofrimento? Tenho a sensação de que se eu não existir nada mais existe. Não falo do corpo que vejo, dos pensamentos que passam. Isso são apenas pedaços d'ISTO. ISTO, inevitavelmente, surge em mim. ___ A quem interessa o sofrimento? Se eu não existir, que importância terá isso? Sim, definitivamente eu existo. Onde estaria tudo o resto, como percepcionaria eu tudo o resto, se eu não estivesse aqui? ___ O que é isto que existe? Sempre a mudar, o que é? ___ Há uma dor que me entra de mansinho no coração. O que é? Parece uma percepção mais intima, mais próxima, mais pesada do que um mero pensamento, mais dolorosa do que uma nuvem no céu ou uma gaivota no mar. É uma dor que surge porque penso ser este corpo pequeno. Claro, só pode ser isso. A dor surgiu porque vi uma mulher a passear na praia com o filho e senti-me só. Mas porque penso que este sentir é meu? Porque me sinto só, se tudo o que vejo é igual entre si e igualmente não-eu? Parece haver uma ligação com este corpo que não consigo cortar. Mas quem é que não consegue cortar a ligação com este corpo que vejo? De onde nasce esta noção de existência? Creio ser apenas um pensamento que me diz que eu existo algures aqui nesta parte do que vejo, que me diz ser algo dentro do que percepciono. O sofrimento surge da aparente ligação que aparentemente sinto com este aparente corpo. Não sou o corpo, nem o pensamento, mas haverá alguma ligação entre o que sou e o que eles são? Se não houver, porquê o sofrimento? Será que ainda acredito ser corpo e mente? ___ 26 Jan A dúvida sobre a minha existência surge ao identificar-me com o corpo. O corpo é apenas algo que surge na minha percepção, implicando que a minha existência poderá ser apenas aparente, uma percepção cuja realidade carece de prova. Mas ao compreender que eu não sou o corpo, que ele é apenas algo que surge na minha presença, então torna-se claro que eu existo. O corpo pode ser uma percepção vazia, uma espécie de sonho, miragem ou fantasma visual, mas eu, enquanto espaço onde todas as percepções surgem, sou real. ___ Disse que nenhuma célula do meu corpo se manteve intacta nos últimos 26 anos, mas isso é especulação pura. Onde é que estão as células? Na minha experiência directa elas não surgem como dado adquirido. São apenas algo que li em livros ou que alguém me contou. E o que é isso de 26 anos? Através de uma observação directa, poderá alguma vez ser encontrado algo a que chamar "ano"? Na verdade, não faço ideia se as células do meu corpo se mantiveram ou não iguais nos últimos 26 anos, porque não consigo provar a existência das células ou do próprio tempo. ___ A realidade é sempre uma percepção despida de conceitos. Quando estes surgem, isso é apenas mais uma parte indivisível da realidade, mais uma percepção despida de conceitos. ___ 28 Jan O mundo todo é sempre algo que vejo e sinto. Nada do que me acontece será alguma vez mais do que isso. É sempre consciência e percepção, sujeito e objecto. Toda a vida, todo o universo resume-se a isso: algo que vê e algo que é visto. Quem é que vê? Nunca o conseguirei ver, pois ele é sempre quem vê. O que é? Em última análise, sou eu quem vê. O que é isso? Qual o seu sabor? Quem sou eu nessa consciência? Existe uma dualidade existencial que é a causa de toda a confusão. Eu sou sempre apenas essa consciência que tudo regista, mas posteriormente surge a ideia que me diz que eu sou algo daquilo que é registado ou visto, seja isso o corpo ou alguma ideia ou padrão de pensamento. Mas isso é sempre algo que surge e mais tarde desaparece. Tudo o que vejo e sinto, vejo-o e sinto-o porque eu sou a consciência que o regista. Eu nunca poderei ser nada do que é registado, do que é visto ou sentido, porque eu sou sempre aquele que vê ou sente. Essa consciência que tudo observa é, e isto está logicamente comprovado, pura tranquilidade, pura liberdade, pura invulnerabilidade. Tudo é reflectido sem escolha ou dificuldade, nunca nada é demasiado grosseiro ou violento para quebrar o espelho da consciência que reflecte. Qualquer que seja a emoção ou pensamento, qualquer que seja a percepção ou situação, a consciência está lá a reflectir. Isto é, em termos puramente lógicos e racionais, quem eu sou. O sofrimento só pode surgir ao imaginar ser algo diferente. Tanto esse aparente sofrimento como a imaginação de ser algo diferente são apenas objectos reflectidos na consciência. ___ 30 Jan Há, assim muito de repente, dois tipos de busca espiritual: a daqueles que querem adicionar algo ao seu ser, ser algo maior ou mais profundo; e a daqueles que muito simplesmente querem saber quem são. Aos do primeiro grupo não tenho quase nada para dizer. Aos do segundo, pouco mais do que isso. "Quem sou eu?" é a pergunta que assola a mente dos que se incluem no grupo que não o primeiro. Esta é uma busca que tem sido mascarada das mais diversas formas, muitas delas a roçar o ridículo, outras tantas a beijar o criminoso ou a abraçar a mentira insana. Quem eu sou é quem eu sou. De uma forma muito clara, quem eu sou está totalmente presente Aqui-Agora. Várias vezes tenta-se complicar esta procura de identidade, por motivos vários, colocando uma palavra pelo meio que parece querer mistificar ou aprofundar todo o processo, como por exemplo, "Quem sou eu realmente?" ou "Qual a verdadeira essência de quem eu sou?" Isto é palha para o burro mascar, é o excremento que ele larga sem sequer olhar para trás, pois quem eu realmente sou, ou a essência de quem sou, continua plenamente presente Aqui-Agora. Eu não posso estar na sala-de-estar e o meu coração estar na cozinha a preparar o jantar, nem posso eu estar a ler um livro na casa-de-banho enquanto os meus olhos estão no quarto a dormir. Da mesma forma, não posso estar sentado em posição de lótus na minha sala de meditação e o meu ser mais profundo e verdadeiro estar a acampar na praia ou a deambular em alguma floresta longínqua. Enquanto eu procuro, luto, purifico e desenvolvo o que quer que seja durante a minha meditação, o meu verdadeiro ser encontra-se tranquilamente presente. Quero saber quem sou, mas, esquecendo-me de começar em casa, vou à minha procura pelo mundo inteiro. É neste momento que um estudioso destas matérias nos relembra que, apesar de quem nós somos estar presente Aqui-Agora, a sua essência parece estar um pouco enublada ou obscurecida, como que um sol a brilhar por detrás das nuvens, ou uma suave melodia soprada por debaixo de um incessante e perturbador ruído. O mesmo estudioso diz-nos que essa nuvem que tapa o sol é a nossa própria mente; que o ruído que engole a doce melodia provém do nosso ego. Aqui surge-nos uma inocente mas pertinente questão: quem eu sou será um... ou dois? Esta é a pergunta que um bebé saberia responder se já lhe tivessem colado as palavras à língua, mas é a pergunta na qual muitos profissionais da meditação e da demanda espiritual parecem não ter reparado, e daí não a terem considerado relevante. Não que a questão seja, por si, relevante, pois a resposta é óbvia - Quem eu sou é apenas e tão somente Um. Mas se eu sou apenas um, como poderá a minha essência estar alguma vez obscurecida ou encoberta? Obscurecida para quem? Claro que o sol pode esconder-se atrás de uma nuvem, mas isso só acontece a quem se encontra por debaixo das nuvens, mas se eu sou apenas um, sob que perspectiva poderia o sol alguma vez ser encoberto? Dizer que a minha essência espiritual está encoberta pela minha mente ou pelo meu ego é colocar três parcelas nesta equação: a essência, aquilo que a encobre e aquele que não a consegue percepcionar directa ou desimpedidamente devido ao objecto de obstrução. Se desde o inicio percebemos que somos a nossa própria essência e somos apenas um, que entidade é esta que não consegue chegar até à essência? De onde surge este terceiro factor, esta pessoa extra? Não é quem nós somos, isso é certo! Imaginemos o seguinte exemplo: - Um budista; - Ele busca a natureza de Buda; - É-lhe dito que a natureza de Buda é a sua própria essência; - É compreendido que esta essência tem de necessariamente estar presente Aqui-Agora em toda a sua plenitude, como um coração que tem de bater sempre dentro do corpo; - É compreendido que o individuo budista é apenas um ser, pelo que só poderá ser a essência já referida, a natureza de Buda; - Quem é então a pessoa que busca a sua essência? Onde está o budista, agora que se viu que o único ser existente é a própria natureza de Buda? O exemplo pode ser visto sobre uma perspectiva mais tradicional, utilizando a palavra Deus em vez de natureza de Buda. Claro que a palavra Deus pode também ser substituída por Amor, Vida, Ser, Absoluto, Consciência Cósmica ou outra qualquer que faça mais sentido: - Imaginemos um praticante espiritual; - Ele busca Deus; - É-lhe dito que Deus é a sua própria essência; - É compreendido que esta essência tem de necessariamente estar presente Aqui-Agora em toda a sua plenitude, como um coração que tem de bater sempre dentro do corpo; - É compreendido que o praticante espiritual é apenas um ser, pelo que só poderá ser a essência já referida, o próprio Deus; - Quem é então a pessoa que busca a sua essência? Onde esta o praticante espiritual agora que se viu que o único ser existente é o próprio Deus? A questão que fica é: terá a pessoa, entidade ou ser que busca a sua essência alguma vez existido de todo? Vemo-nos então confrontados com um cenário insólito: temos buscado penosamente por uma essência espiritual que tem necessariamente, por questões existenciais, estado sempre e completamente presente Aqui-Agora. Não só está totalmente presente agora mesmo, como por razões lógicas, só pode ser quem plenamente somos, visto sermos uma única entidade - e não duas. Somos como uma onda em busca da água, percebendo que esta esteve sempre plenamente presente dentro de si e nunca existiu separadamente, e descobrindo que, se na verdade só existe um ser, este sempre foi a vasta extensão de água que constitui a sua essência. A onda é constatada como estando realmente ausente, tendo sido apenas uma espécie de ilusão de óptica. É neste momento que outra pertinente questão se ergue: estão se a minha essência está presente Aqui-Agora e se ela é quem eu plenamente sou, porque motivo obscuro não sou eu capaz de a percepcionar? É aqui que o bebé de há pouco articula novamente uma língua ainda despida de palavras para nos dizer que um olho nunca poderá ver-se a si mesmo, nem a flecha espetar-se em si própria, ou o espelho reflectir-se como se fosse objecto exterior a si mesmo. A percepção sempre implica alguém que percepciona e algo que é percepcionado; chama sempre por sujeito e objecto. Assim sendo, procurar a nossa própria essência ou buscar por nós próprios, é querer ser, ao mesmo tempo e na mesma experiência e lugar, sujeito e objecto, aquele que vê e aquilo que é visto, ser o "eu" que encontra o "eu" que se encontrava perdido. É como pedir à ovelha que se perdeu do rebanho para encontrar a ovelha que se perdeu do rebanho, ou pedir ao policia que assaltou uma joalharia que encontre o ladrão que assaltou a joalharia. Obviamente, tanto ovelha como policia poderão correr toda a Terra, mas nunca encontrarão o que procuram. Muito obviamente, tudo aquilo que vemos é apenas isso mesmo - aquilo que vemos. Nós irremediável e inevitavelmente somos aquele que olha, que percepciona. Tudo o que vemos é não-eu, é quem não somos. Corpo e mente, pensamentos e emoções, percepções e tudo o resto são meramente fragmentos de não-eu a flutuar perante o olho do Eu. É assim que vemos que toda a busca espiritual é baseada num erro de percepção, num caso de identidade trocada, pois confudimo-nos com algo que vimos, pensámos ser algo do que estava a ser percepcionado. Vemos, deste modo, toda a demanda por "Quem eu sou" escorregar pelo cano abaixo, empurrado pelas águas intransigentes da mais cristalina lógica e observação directa. De onde surge então toda a confusão? Todo o sofrimento, toda a busca, toda a sensação de algo se ter perdido, de algo faltar? Em última análise, é uma ilusão de óptica que surgiu do mesmo sitio donde surgiram as batatas, as nuvens e as pedras, as árvores, os oceanos e os astros: de lado nenhum ou de todo o lado. Tristeza e algodão doce, busca espiritual e ribeiros fluindo, tudo são destroços a flutuar na presença oceânica que somos, tudo pedaços de poeira cósmica a flutuar no espaço da nossa própria consciência. Juntamente com tudo isto, surge a ideia de um "eu", um ego individual que parece ser o centro gravitacional em redor do qual gira todo o tipo de pensamentos e emoções, como um enxame de abelhas a rodar sobre si mesmo, vazio de existência individual, ou como um tornado que faz girar mil ventos em redor de um espaço vazio. Desde tenra infância que esta ideia de "eu" é alimentada e é ela que transformamos em sujeito da nossa vida, no olho que tudo vê, no espelho onde todas as percepções são reflectidas, transformação aquela que não passa, ela mesma, de um mero pensamento ou crença. Porém, esse "eu" é apenas uma ideia que flutua na nossa consciência, que é reflectida na nossa presença. É uma ideia que, por ter tantas outras a ela associadas, julgamos ser real. Mas onde está esse "eu" então? Essa entidade que sofre e busca? A pessoa que chora e ri? Onde está esse caminhante que procura a sua própria essência? "Quem sou eu?" é a pergunta que tem alimentado a busca espiritual de milhões de pessoas ao longo de milhares de anos, mas, sendo o nosso ser apenas um e eternamente em intimo contacto consigo próprio, como poderá ele não saber quem é? Será esta questão apenas mais um dos fragmentos ou pensamentos a cruzar a nossa consciência sem qualquer aplicação pratica? A essência de quem eu sou está necessariamente presente Aqui-Agora. Sendo eu apenas um, essa essência é quem eu já sou, não havendo qualquer periferia no meu ser. Sendo eu já a profunda essência de quem eu sou e sendo impossível ver-me ou encontrar-me a mim mesmo como objecto de mim próprio, serei eu algo mais (ou menos) do que o grande espaço invisível e inefável onde tudo o que é visto, sentido e percepcionado existe? Não serei a presença onde o universo inteiro se manifesta? Restará algo mais que possa ser quem eu sou? ___ 1 Fev Tenho andado muito preocupado a tentar encontrar o "eu", mas se eu ignorar o pensamento que me diz que há um "eu" ou que me diz que tenho de encontrá-lo, onde está o "eu"? Emoções fortes surgem, por vezes, e tenho a tendência a atribuí-las a um "eu", a uma entidade que as possui, mas não parece fazer muito sentido. Imaginemos uma sensação de irritação no peito. Por um lado, temos um corpo, por outro um peso no peito e noutro temos ainda a ideia de um "eu", mas qual a lógica em aglutinar tudo na mesma entidade, quando na verdade são tudo experiências separadas e independentes umas das outras? Um corpo, uma sensação, um pensamento, não estão todos eles apenas a surgir na minha experiência? ___ Parece haver uma separação entre mim e algo profundo, seja isso chamado de vida ou existência ou ser. Mas onde está essa separação? Onde está a linha que divide? Onde está o fosso? Não sou eu um pedaço de vida em perfeita união com tudo o resto? Onde está a separação entre mim e a minha essência? Entre mim e a existência? ___ A busca espiritual parece terminar ao fim de quatro perguntas: 1) Estou presente? Não como corpo que vejo ou pensamentos-emoções que percepciono, mas como aquilo que vê e percepciona. Estarei eu presente? Sim, estou aqui, algures, isso é certo. 2) Estou consciente? Sim, tudo é registado sem esforço. Giro a cabeça e as alterações na paisagem são reflectidas instantaneamente. Os sons são registados, as imagens são assimiladas, os odores, as sensações, tudo é percepcionado. 3) Existe alguma separação entre mim e esta presença consciente? Não, "eu" não posso existir sem a presença desta consciência - tudo seria escuro e silêncio se tal acontecesse. Não existindo separação, eu sou essa consciência. 4) Há algo de errado com essa presença consciente? Tendo em conta que essa presença se mantém inalterada perante tudo, ela parece estar num estado de profunda paz e liberdade. Não será isso que buscamos na vida espiritual? Não é isso que eu sou agora mesmo? Se não existe qualquer separação em relação a algo tão profundo, de onde surge a busca então? 4 Fev Toda esta busca espiritual, esta tentativa de clarificar a minha identidade, quem é que leva tal a cabo? Se eu sou o olho que tudo vê, o eterno observador, incluindo desta busca, nenhuma acção é feita por mim, pois eu sou quem percepciona essa acção - do início ao fim. Eu vejo a minha mente a tentar clarificar a minha identidade. Sento-me nesta poltrona decidido a reflectir sobre isso, mas quem é que o faz, se a consciência que sou apenas observa? Essa presença-consciência não parece ter dúvidas sobre a sua natureza, pois ela nem sequer tem uma mente para articular pensamentos, dúvidas ou questões. Mas se essa consciência é quem eu sou, quem é que então está a tentar clarificar a sua identidade? Não existe nunca qualquer separação entre mim e esta consciência. Na verdade, não existe "mim", apenas a consciência. Toda a dificuldade surge na identificação com o corpo, identificação essa posteriormente reforçada pela mente. É percepcionado um corpo; depois surge um pensamento que diz "Isto é quem eu sou". Corpo e mente surgem assim como a essência da minha existência, mas o corpo e mente são objectos de um sujeito observador. Eu claramente vejo um corpo e pensamentos vários, mas qual a minha relação com eles? A mente vai e vem, eu fico. O corpo sofre alterações várias, eu mantenho-me igual. Haverá alguma ligação? Tenho a sensação de que quando descobrir quem é que está nesta busca espiritual, descubro a minha verdadeira natureza, pois descubro que não existe ninguém na busca espiritual. A consciência de certeza que não está na busca espiritual, ela parece perfeitamente completa e independente de tudo o resto. Tudo parece provir dela, mas nada é quem ela é, tal como todas as folhas surgem da árvore, mas nenhuma é a raiz central de onde todas provieram. Parece existir uma tão abissal desconexão entre consciência e aparência, entre sujeito e objecto, que parece irrelevante prestar qualquer atenção aos objectos. Tentar fazer o que quer que seja para clarificar a natureza desta consciência não parece fazer sentido, porque tudo o que é feito é feito no plano dos objectos. É como um actor num filme a tentar compreender a natureza da tela de cinema onde o filme está a ser projectado. Realmente há a sensação de ser um actor separado dentro de um filme maior, mas quando procuro a essência do actor, a única coisa que encontro parece ser a própria tela onde o actor é projectado. Tenho a sensação de ser dois ao mesmo tempo, pois embora ao procurar pelo "eu" (actor) encontre apenas a consciência (tela), a verdade é que o "eu" parece continuar a representar quem eu sou. Se cada vez que procuro o actor ou o "eu" só encontro a tela ou a consciência sempre presente, onde estará o actor ou o "eu"? Será real de todo? Sinto-me quase a perceber tudo isto, a clarificar a minha verdadeira natureza, mas... quem é que está quase a fazê-lo? Será o actor que julga estar a compreender a tela? (...) 17 Fev Eu sou o espaço onde tudo ocorre, onde tudo é permitido, onde tudo aparece e, inevitavelmente, desaparece. Dentro de ISTO tudo é permitido. Não há escolha, não há critério, não há nada, apenas ISTO, Aqui. Tudo é acolhido, mesmo a ideia de que eu sou algo que não isto, algo separado, algo dentro d'ISTO. É hilariante a ideia de que o pensamento tem qualquer valor. Só agora me apercebo que não tenho de encontrar o "eu" ou ver-me livre dele. A noção de ser um "eu" separado pode continuar a surgir. Agora tenho a noção de que ele aparece em quem eu sou. 8 Mar - Onde é que vou encontrar o meu ser? Não pode ser no passado nem no futuro, tem de ser agora. Eu existo sempre Agora; - Nem pode ser ali ou além, tem de ser aqui. O meu ser está sempre Aqui; - Quem eu sou tem de estar sempre constante e presente, não pode oscilar na minha experiência; - Quem eu sou não pode também estar escondido de mim ou imperceptível, pois isso exigiria que eu fosse dois seres ao mesmo tempo, e eu sou apenas um. Assim sendo, Aqui e Agora, sempre Presente e Constante e sempre Acessível, quem sou eu? 16 Abr It is seen that consciousness appears; it is seen that it disappears. I remain. Whatever appears in consciousness, it is what it is. Where is it coming from? That's itself just a question appearing in consciousness; an "object" in consciousness, as any other. Ultimately, the only answer would be, "it's coming from the presence beyond consciousness, the presence that I am". In consciousness a body is seen. Thoughts manifest as well. The idea of a separate person appears - all appearing in consciousness, appearing in me. Whatever happens in consciousness is of no relevance to the presence prior to it. I am that. Whether beliefs say I am some-thing inside consciousness, that is of no relevance. All things are seen in consciousness. I am not in consciousness; consciousness is in me. Only one "person" exists in consciousness. There is only one existence. When that existence rests in sleep, I remain. Death can only be as going to sleep, for is consciousness shutting down. Death is the end of consciousness, not necessarily the end of the body. Consciousness fades at night. One day it won't resurface from unconsciousness and that is all. The presence prior to it is unconcerned. Every night a kind of death happens to consciousness. There is no proof that it won't be permanent. And if tomorrow a different set of memories was to appear in consciousness, nothing real would change. There would be just different perceptions floating in consciousness. And there would be just consciousness floating in presence. This presence is... unfathomable. Clarity may fade, it may appear and disappear. Of what relevance can it be? At night, consciousness sleeps, but presence is ever awake. Clarity is not present nor absent. The very concept of clarity does not apply. The spiritual search is rooted in consciousness, where no final answer can be found. On the other hand, outside of consciousness there are no questions, no doubts, no-thing whatsoever. But there I am. The need for answers is an illusion of consciousness, and so is the search for peace or truth. Whatever manifests in consciousness, it will eventually disappear, for consciousness is transient, or is it not? That’s my experience. Inside consciousness all things seem also to be transient. So, whatever truth or peace is found in the transience of consciousness, they will too eventually fade, for consciousness is bound to fade. Who am I? This is a question appearing in consciousness. In consciousness nothing real is to be found. The answer to “who am I?” lies in the presence “outside” of consciousness. In there there are no questions. In here there are no answers. In presence nothing is ever sought for. So nothing is ever lost. The idea of a separate person still persists. But separate from what? Only one sense of existence is ever present – and even that comes and goes. All other persons are assumed in the mind. In truth, only perceptions can be seen. In direct evidence, I alone exist. But the complete absence of the person has to be seen. Otherwise, identity will forever lie trapped inside the walls of consciousness. Presence, in itself, seems pretty unconcerned about anything happening in consciousness. Therefore, whatever is experienced in consciousness will have the flavor of truth or reality. Experientially, there is no other reality than consciousness, no other truth, because beyond it there are no experiences, just presence. Suffering manifests when it is believed that I am something appearing IN consciousness, when in fact, consciousness is something appearing IN me. Whether this idea is deconstructed or not, nothing real is affected. Nonetheless, the experience in consciousness is. Here lies the seed of the spiritual search. 8 Mai A mente é um órgão de reflexo - um mecanismo de reacção a estímulos. Vê uma imagem e cria um conceito sobre ela. Ouve um som e responde com um pensamento. Podemos eliminar todos os estímulos e deixar apenas o silêncio e vazio absolutos, e ela criará reacções a isso, reflectirá sobre essa não-experiência. A mente é um órgão de reflexo, de reacção, mas a reacção é sempre involuntária, é sempre produto do estímulo, não de um sujeito que a coordena conscientemente. ___ As características do ser existem sempre em estado absoluto. Será por isso que há quem lhe chame o Absoluto, o Supremo. O ser está presente, absolutamente presente, pois a presença é sempre absoluta - ou se está presente ou ausente, não existem graus de presença. O ser está consciente, absolutamente consciente. Não existem também graus de consciência - ou se está consciente ou inconsciente. O ser é silencioso, absolutamente silencioso - o silêncio não tem níveis. O ser é vazio, absolutamente. É sem forma, absolutamente. É paz, sem graus; é liberdade, absoluta. Todas as suas características existem em estado absoluto. Porque não chamar-lhe o Absoluto? 16 Jun Listening to Mooji on my mp3 player in the redwoods forest, he asks, "Can the observer be observed? That which sees, can that be seen? You see everything, can you be seen?" I pause the player and try to find an answer. Mooji said, "use all you have to answer me, if you can". I try... Can the seer be seen? Can the space in which everything happens, can that be seen? My mind is running fast in search for an answer, I see the movement of the mind but the space is forever unseen, the seer cannot be seen, the eye cannot see itself. Then comes the recognition that I am indeed that space where all is seen and there is no need to see it, the seer has no need to see itself. There is this huge presence, huge beyond any idea of hugeness, infinite and absolute beyond anything imaginable, I am that space where all appears, body and mind and world appear in it, but the space is completely beyond them and not connected with what is seen. This body-mind has absolutely nothing to do with it. There is a clear knowing that this presence is God, it is the ultimate. A deep reverence dawns on me, I feel like prostrating myself to it. There's an energy flowing in this body, a bliss, it feels like an Ayahuasca "high", but without the drugs. It may be a kundalini awakening, who cares? It is seen that the True Understanding has nothing to do with this body-mind, it comesfrom beyond it, way way beyond, beyond words, ebyond description, beyond imagination or the wildest dreams. This Void is unfathomable, it is untouchable. The world is nothing but a dream - images and perceptions always seen from This, always perceived by the space where they float in. All ideas of ever having been inside a body or a world, of ever having "incarnated" make absolutely no sense whatsoever. There was a sense of familiarity, of "home", in all this, like I had this experience many times in my life - but I haven't. There was also a fear, likesomething was afraid to die or disappearing. Whatever is done in the appearance, inside the dream, it is always just appearance, always dream activity. The dreamer, the Void, the Ultimate Space, the Unfathomable Emptiness is always beyond any activity. The true nature of reality is extraordinary beyond comprehension. It is simpy amazing, and amazingly simple - when it is seen clearly. Dré Take a look aroundTake a look around all things green and brown they are here to stay The people walking by buildings built so high will be gone someday Take a look around everything you've found will be gone someday... Dredg - Take a look around, The parot, the Pariah, the Delusion The California Diaries VIIIVinte e sete de Junho, mochila às costas, às seis e um quarto da manhã arranco para São Francisco com uma directa em cima, é a única forma de estar acordado a tal hora matutina, passo um tempo em São Francisco a matar saudades daquela cidade muito especial, subo à Coit tower, provavelmente a melhor vista da cidade. A vista da Coit Tower - a qualidade da imagem dá a parecer que estive lá em 1967 Por volta da hora de almoço apanho o autocarro para Santa Rosa, paragem forçada, o meu destino é Sonoma, chego lá por volta das dezanove horas, caminho até ao Whole Foods Market, compro um "burrito" para matar a fome, é uma pequena vila, alguns milhares de habitantes apenas, os meus pensamentos deslizam para o sossego que é viver em semelhante sitio, uma paz de espírito impressionante, é neste preciso instante de profunda contemplação e pachorrento repasto que vejo um grupo de jovens aos saltos e gritos, apercebo-me que seis ou sete rapazolas estão a tentar espancar um outro, depois reparo que afinal seis ou sete contra dois ou três, enfim, sempre é mais equilibrado, um lembra-se de pegar num vaso de plástico com flores que estava para venda à frente da "Longs Drugs", é uma cena que se arrasta do grotesco para o cómico passando pelo absurdo, os seis ou sete jovens dão-se como vencedores e abandonam a cena uivando triunfalmente, um arrufo de gangs, com certeza, coisa habitual pelos EUA, acabo de comer o meu "burrito" e penso, Aaahh, como é pacata a vida numa pequena vila do interior". É uma zona vinhateira, região famosa pelo seu vinho, a população é dois terços hispânica, sinto-me como que em LA ou San Diego, na fronteira com o México, caminho até ao parque/bosque onde encontro um lugar para dormir, está bastante calor, adormeço numa "torre" num parque infantil. A árvore que me serviu de abrigo Acordo cedo, por volta das 5H30, já há algumas pessoas a girar no parque, notando a hora e o pormenor de ser Domingo, naturalmente passa-me pela cabeça que estas pessoas são loucas, enfim, sigo a minha vida, às 10H tenho o encontro com o Prasanna, o Buda vivo da Califórnia, é uma honra e privilégio poder partilhar as minhas dúvidas com semelhante ser "celestial". Resumindo a coisa, ele convida-me a ficar na casa dele, não se sente confortável com a ideia de eu ficar no parque/bosque, mesmo que não há primeira acabo por aceitar o convite, passo cinco dias em casa dele, conversamos imenso, ele entrega-se de alma e coração às minhas perguntas, eu entrego-me de alma e coração às suas respostas, vamos jantar e, embora eu tenha puxado de uma nota de cem, ele insiste em pagar o jantar, dias antes ele tinha feito o mesmo, dia vinte e dois de Junho fomos cinco visitá-lo de Santa Cruz, estivémos sete horas com ele a conversar sobre não-dualidade, no fim ele vira-se e diz, "Tive uma ideia, e que tal se encomendássemos uma pizza", se este doce homem de setenta e três anos já estava nos píncaros da minha consideração, com a ideia da pizza ficam batidos todos os recordes, e foi aí que ele puxou de uma nota de cem também. Durante estes cinco dias penso muito, leio algumas coisas também, nomeadamente de um livro chamado Consciousness is All, bebo do néctar que o Prasanna me dá à boca através das suas palavras, parece um avozinho a dar de comer ao netinho, "Olha o aviãozinho", aqui o aviãozinho é a colher da não-dualidade que vem cheia do meu próprio ser, a minha verdadeira natureza, ele lê-me algumas passagens de uma escritura indiana monumental chamada "Vasistha's Yoga", um tiro de luz radiante que viaja pelos séculos e me atinge em cheio no coração da alma, mostra-me também alguns dos seus próprios escritos, cita Maharaj muitas vezes, sinto-me como se estivesse na presença do próprio Nisargadatta, mas este é um Maharaj doce e paciente, um poço de ternura e amor, sinto-me como se pudesse morrer agora em paz, agora que estive na presença de alguém assim. De manhã ele toca flauta, acompanhado por um modelo electrónico de um instrumento indiano chamado tampura, cozinha comida indiana para dois, são dias passados nas traseiras da casa dele onde uma fonte artificial faz o som da água bailar no ar 24H por dia, são dias de puro néctar para a alma. O Prasanna e eu Dia três de Julho ele tem família a visitá-lo por uns dias, por isso não posso continuar em casa dele, ele diz-me que vou regressar a Santa Cruz, mas que sou sempre bem-vindo a casa dele, eu fico um pouco baralhado, porque estava a pensar ficar por Sonoma, regresso ao parque ainda indeciso, mas acabo por ficar mesmo por ali, não tenho nada para fazer em Santa Cruz, mais vale aproveitar e ficar ali a ler e a reflectir sobre algumas coisas, ele ofereceu-me o tal "Vasistha's Yoga", um resumo em inglês do terceiro livro mais extenso do mundo, um resumo que ainda sim conta com mais de setecentas páginas, por ali fico, leio um bom bocado, assim passo sete noites a dormir no parque, sexta-feira, dia dez, regresso a casa para me despedir do Prasanna, ele recebe-me alegremente, diz-me que já estava a ficar preocupado, pois tinha ligado para Santa Cruz e eu não estava em casa, conversamos umas duas horas, ele lê-me um pouco de um outro texto impressionante da tradição Kashmir Shaivism, são tópicos que a mente comum jamais sonhará tocar, palavras escritas há centenas de anos atrás, dá-me vontade de rir da arrogância imatura da ciência moderna na sua busca pelas respostas às perguntas mais profundas sobre a vida e o universo. A conversa chega ao fim, eu agradeço do fundo do coração a profunda hospitalidade deste pequeno homem, pintor de máxima categoria, homem espiritual de compreensão absoluta, foi uma honra, ele diz-me que está bastante feliz com a minha situação, que percebe claramente onde está a minha última dúvida, que é apenas uma pequena impureza a flutuar numa consciência infinita, que vou continuar a combater por um pouco mais tempo, mas que ele tem a certeza absoluta que tudo estará terminado muito em breve, eu sorrio, de certa forma sinto o mesmo, dois abraços, palmas juntas no peito, um namasté silencioso, um gassho de gratidão, dentro de mim próprio prostro-me cem mil vezes diante deste homem, as práticas preliminares estão terminadas, "o que havia para ser feito já foi feito", disse-me ele, assim é. Hoje, quinze de Julho, sento-me à mesa de um restaurante no San Francisco International, durante os últimos dias estive a aproveitar os meus momentos finais na lindíssima Santa Cruz, ontem almocei com o John Wheeler uma última vez, uma conversa muito interessante, um abraço para o caminho e aqui cheguei com a boleia da Elizabeth, um amor de amiga que me acolheu durante estes seis meses, aqui estou no SFO, esta aventura chega ao fim, a "viagem para terminar todas as viagens" está a terminar, regresso à base, com serenidade suficiente, com paz que chegue, sinto que o fruto não foi plenamente colhido, mas a semente foi plantada, o meu trabalho está terminado, agora é o amadurecimento natural do reconhecimento interior, todas as coisas têm o seu timing, também este encontro comigo próprio tem o seu ritmo, sei que dei tudo o que tinha para dar, todas as células do meu corpo se moveram nesta busca, todos os músculos da alma se esforçaram intensamente por alcançar o topo da montanha de mim próprio, sinto-me agora como que a cair de um precipício, o salto que havia para dar foi já dado, agora é apenas esperar, a queda é inevitável. O John Wheeler e eu A partida de Santa Cruz, a 15 de Julho, com duas mochilas, um saco e uma guitarra *** A partilha do que me foi dado a conhecer aqui na República da Califórnia será sempre um esforço em vão, sinto-me como alguém que foi convidado, por um estranho, a subir ao sótão da sua própria casa, e lá foi levado até uma velha porta, uma porta familiar, muitas vezes tinha sido vista, outras tantas ignorada, o estranho pede para abrir a porta e ela é aberta, do lado de lá as palavras caem, os olhos não alcançam, o que é visto é o Paraíso para além de todos os paraísos, o Céu mais alto de todos os céus mais altos, o espaço é infinito, a luz é sem fim, o coração explode em mil direcções e em todas elas me encontro eu próprio, a mente fica em silêncio perante a vastidão imensa do que é sentido, perante o abismo que se abre diante dos seus pés, nenhum conceito se aplica, nenhum esforço do pensamento toca o Real, O Que É é para sempre além de tudo, quando os infinitos reflexos desaparecem e são esquecidos, apenas o que fica é real. A partilha de tal dádiva só poderá ser efectivada quando a Compreensão for profunda e conclusiva no meu coração, só aí poderei expressar o que foi, por enquanto, apenas visto. Nessa altura as palavras serão secundárias, pois dos próprios poros da pele transpirarão palavras sagradas, num simples olhar estará presente a Luz que é a mãe de todos os sóis, num mero sorriso será visível a eterna vastidão e infinita presença onde todas as estrelas brilham, onde todos os astros dançam, esse infinito Ser, essa eterna Luz, Eu Sou. Esta é a verdadeira partilha, esta é a única dádiva, mas já nem posso dizer ser esse o meu desejo mais profundo, porque, hoje em mim, não existe nenhum outro desejo, esta Compreensão perfeita e a sua partilha é o meu único sonho. A natureza de tal propósito, o tecido com que semelhante ambição se tece é de um carácter tão sagrado que qualquer palavra ou esforço para o expressar não será mais do que uma mancha de tinta no mais imaculado dos céus. O meu silêncio mais profundo e pleno da mais inacreditável gratidão é a única forma de honrar o que me foi dado a conhecer aqui na Califórnia. *** Fica o meu agradecimento a todos os que representaram os seus papéis nesta minha aventura Americana. De entre eles, à Elizabeth e ao Michael, ao John e ao Prasanna, o meu mais sincero obrigado. Dré A d i s função do A mo r O amor são sonhos que ergues no coração por não teres os pés pousados na terra, imaginas ter um buraco no peito e buscas em todos os cantos na tentativa de o preencher, mas o buraco não o tens no peito, o buraco tens-no no corpo e é ele o próprio peito, é eternamente um lugar vazio, ele é céu e vale, por ele passam todas as coisas, mas ele em si é sempre coisa nenhuma, ausência apenas de tudo o resto, por isso o amor dos homens é inevitavelmente uma actividade disfuncional da mente, tentando preencher aquilo que nunca será preenchido, o verdadeiro amor é apenas olhar e ver passar e ser feliz assim, os que tentam encher o coração com os corações dos outros querem abastecer o céu de ar, atafulhar o vazio com silêncio, o que procuram é coisas que as mãos possam e queiram agarrar, mas para que quereria o peito as coisas das mãos?, aquilo que as mãos tocam o coração não almeja, aquilo que a cabeça sonha nada diz ao mundo que habita no peito, ele é sempre completo por si mesmo, como um olho que para ser pleno apenas precisa de olhar, perfeita visão mesmo que nada seja visto, ao coração basta olhar e ver tudo o que se mexe dentro dele, como corpos que se movem dentro de uma casa sem nunca derrubar ou manchar as paredes, assim é o coração, é ele o mais profundo amor, é a mais sólida parede que se ergue dentro do peito, as sombras e medos e fantasias da cabeça do homem nunca racham a muralha de ar e luz que vive no centro da alma do homem. Dré Fingir-me de tiA minha alma, mais esquina menos esquina, esbarra sempre em ti,
és sempre a pedra onde tropeço,
e a queda é inevitavelmente tão doce que quero tropeçar em ti diariamente,
cair em ti, mergulhar em ti, fingir-me de ti dentro de mim.
Dré
Elogio da alma
Estrangeiro em mim
Bola de fogoSento-me em frente ao computador e a única prova de que estou ainda vivo é a dor imensa que me invade a alma, sou um boneco de palha desfeito em farrapos sob os pés de mil exércitos, sou um coração perfurado pelos cornos de cem mil bestas, rasgado pelas garras de todas as feras da terra, sou todas as árvores do mundo queimadas, sou todos os mares enegrecidos, os céus obstruídos, sou maior do que todas as dores do mundo, sou infinitamente mais pequeno do que a mais insignificante das alegrias desta vida, se o sofrimento fosse corpo eu seria gigante entre os gigantes, grande de mais para caber dentro das paredes deste universo. A minha respiração é pesada como se tentasse puxar com braços de seda todos os infernos escaldantes do submundo, os membros do meu corpo estão exaustos, sinto-me decepado por estas emoções, sou fatias de alma espalhadas pelas ruas nojentas de uma existência esvaziada de sentido, se sei que existo é porque todo eu sou um novelo de angústia, se calculo ter alma é apenas porque dela saem estas labaredas que me derretem por dentro, sou uma bola de fogo, como um sol, mas nesta dor apenas arde a mais pura escuridão. Cada recordação tua é um soco no peito, hoje sou carne amassada, pisada por estes punhos, dentro e fora. Retirado de um Diário de um Condenado à Morte Dré Sobre um Império![]() Este mundo está podre, podre como uma maçã caída no chão, tão podre que ao a agarrarmos ela desfaz-se na mão, mas mesmo na podridão de uma maçã velha se encontra uma semente, enfim, é sempre da maçã podre que nasce a nova árvore, as maçãs boas comemo-las nós e daí nada novo nasce, que este velho mundo se desfaça no chão e dê à luz uma nova árvore, uma árvore onde os frutos nasçam para todos, somos todos humanos, porra, para quê ignorar isso?, todos temos um buraco no estômago e outro no coração, ambos requerem o seu alimento, as fomes de corpo e espírito são a maior podridão que a árvore deste Império alguma vez pariu, se ignorarmos a semente que aqui se esconde nenhuma árvore mais nascerá neste mundo, este Império será sempre um lugar desolador debaixo do sol, neste deserto nem uma sombra onde repousar, nem um ramo onde escutar uma ave, nem uma folha onde possa o vento sussurrar, porra, isto não é morte, nem é isto vida, isto é somente morte em vida. Retirado de Doença do Coração Dre' Apenas Deus é suficienteNão deixes nada incomodar-te; Não deixes nada desanimar-te; Todas as coisas passam; Deus nunca muda. A paciência alcança tudo aquilo que ambiciona. Aquele que encontra Deus descobre que nada lhe falta: Apenas Deus é suficiente. Santa Teresa de Ávila (1515 - 1582) Let nothing disturb thee; Let nothing dismay thee; All things pass; God never changes. Patience attains All that it strives for. He who has God Finds he lacks nothing: God alone suffices. tu e euNos nossos corações, tu e eu somos iguais. No nosso ser, tu e eu somos o mesmo. Dre' |
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